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NA OCA

​Trata do modo de vida das populações indígenas, seus conhecimentos e visões acerca do mundo, cultura e religião, oriundas de ocupações seculares das terras amazônicas, cultivando seu equilíbrio ecológico.

O povo Baré: mais de 600 anos de cultura apagados pela colonização

12/15/2020

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Foto: Pisco Del Gaiso
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Rio Xiê e Alto Rio Negro. É nessa região que vive a etnia indígena Baré, dividindo espaço com outras etnias, principalmente os Werekena.. Antes do contato com os colonizadores, a etnia Baré era o povo mais populoso do Amazonas, habitava toda a região do baixo, médio e alto Rio Negro; os Baré migraram para a região noroeste do Estado do Amazonas compulsoriamente fugindo de conflitos, exploração e do trabalho impostos pelos colonizadores. Os Baré hoje são a décima população indígena mais numerosa do Brasil, no entanto em 1990 eles estavam na lista de povos indígenas em processo de extinção.
Povo do rio, como eram chamados os povos indígenas que habitavam as margens do Rio Negro em contraposição aos povos que viviam em meio à floresta, ​os Barés tiveram intenso contato e convivência com os não indígenas logo no início da colonização amazônica. Dessa intensa convivência resultaram algumas das principais características que identificam os Baré atualmente: a miscigenação, a perda da língua, a perda de uma grande parte das tradições e cultura, e a perda de sua autonomia política e econômica.
De acordo com Instituto Socioambiental (ISA), o termo Baré deriva do termo bari que quer dizer “branco”, se tomarmos por oposição a categoria “negro”. Os Baré são conhecidos como os “índios brancos” entre a as comunidades indígenas. Isso se deve à forte miscigenação entre os indígenas e não indígenas no período colonial da Amazônia. Além da miscigenação, eles são chamados assim pelo fato de que foram a etnia que mais se assimilaram a cultura dos não indígenas propagadas pelas missões religiosas.
Os missionários foram os primeiros a se estabelecerem nos territórios indígenas e foram os responsáveis por cooptá-los a um novo modo de vida, retirando-os de suas comunidades originárias para incutir-lhes a cultura europeia e cristã. Foi nesse processo que a etnia Baré contribui para a construção do forte São José do Rio Negro, que mais tarde viria ser Manaus.
Os Baré atualmente se reconhecem como um povo misturado. Uma mistura oriunda das relações interraciais que levou a uma fragmentação de sua população. No século XIX o antropólogo Curt Unckel Nimuendajú identificou quatro conglomerados populacionais que representavam essa etnia, do casamento com outras etnias da região e com etnias da Venezuela e da Colômbia. ​O caboclo amazônico é resultante da miscigenação Baré.
Sobre o povo Baré o antropólogo Viveiros de Castro, no prefácio do livro Baré: povo do rio, comenta: “eles são ´o povo brasileiro, mas não são exatamente não índios. Eles não são mais índios sem serem por isso não índios, isto é branco. Não são nada. (...) reivindicam que são índios porque são Baré e não índios porque ‘Baré”’  é o nome dos índios que não são mais índios, então se lhes acusa de serem índios falsos. Isto é, de serem índios que se deixaram falsear, fraudar, pela promessa dos brancos(...) de que se deixassem de ser índios, virariam brancos. E jamais viraram. Ficaram no meio, nem índio nem não índio, nem cristão, nem pagão, ou, pior os dois ao mesmo tempo.”

Língua e crenças
Os Baré e os Warekena são nativos da família linguística Aruak. No entanto, a língua Baré foi extinta, deixando de ser falada na década de 1980. Os Baré atualmente são falantes do português e do nheengatu, a língua franca que foi difundida pelos missionários carmelitas nas missões religiosas como língua geral. A extinção da língua Baré ocorreu devido à proibição da utilização de línguas indígenas pelos religiosos europeus. O nheengatu, uma forma simplificada do tupi antigo, representa a identidade cultural da etnia.
Assim como a língua originária, poucas informações da cultura Baré sobreviveram à colonização, muito dos ritos costumes e lendas se perderam com o tempo. A cultura Baré foi radicalmente transformada no decorrer da história, apresentando uma grande mistura da cultura e das crenças indígenas da Amazônia brasileira, da Amazônia venezuelana, do europeu.  Uma das principais características que a dispersão e a miscigenação causaram na cultura Baré é ausência de aldeias ou comunidades da etnia, como ainda é comum com outros povos indígenas. Desde a década de 1980, quando os antropólogos voltaram seus estudos aos Baré, eles apontam ​esse povo se organiza em pequenos grupos familiares dispersos por várias áreas do Rio Negro, como nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro.
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Preparação para o ritual de Kariamã. (Imagem: Creative Commons)
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​Entre os ritos praticados pelos indígenas Baré a maioria foi adquirido com os não indígenas nas missões religiosas, como as festas de santos para os que são católicos. Hoje uma parte dos indígenas que se identificam como Baré e vivem nas nove comunidades do Rio Xié são protestantes por influência da Missão Novas Tribos do Brasil que se instalou na região ainda na década de 1980.
Um dos rituais antigos dos Barés que havia sido abandonado por causa do processo de aculturação dos indígenas foi ​​o kariamã, uma cerimônia de iniciação que era realizada no verão e no inverno. O kariamã durava até onze dias com os jovens integrantes da comunidade. Começava com um jejum no qual era permitido consumir apenas água, chibé (mistura de água com farinha), caribé (mingau de farinha) e vinho de açaí. Depois do jejum eles comiam o kariamã, vários peixes cozidos com muita pimenta. E então comiam frutas, beiju, farinha e carne caça, e todo o alimento utilizado o ritual passava por uma preparação prévia em que o pajé soprava fumaça de tabaco sobre o alimento, ritual também incluía o flagelo dos iniciantes com caniços. Durante o kariamã os indígenas tocam os objetos sagrados de jurupari e aprendem a fazer utensílios que utilizam no seu cotidiano para coletar frutas, caçar e fazer farinha.
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Meninas fazem o ritual de kariamã (Imagem: Creative Commons)
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​Manaus e os Baré
O gentílico do Amazonas é amazonense, no entanto, quem nasce no estado também é reconhecido por baré. Eles já foram uma das populações mais numerosa da região, e tiveram uma importante participação na construção da história do estado. Três povos indígenas habitavam a região que hoje é a cidade de Manaus: os Manaó, os Tarumã e os Baré.
Os Baré que não conseguiram fugir foram aldeados pelos missionários juntos com outros povos da região. Além de  serem obrigados a assimilarem a cultura, regras e crenças dos colonizadores, eles também construíram a cidade ao custo de muitas vidas indígenas perdidas nas guerras, por causa de doenças e trabalho escravo. Antes do período da borracha a cidade era indígena nos modos, na população e no ritmo. Os Baré foram explorados pelo trabalho extrativista na coleta de borracha e na colheita de piaçava, atividade que eles cultivam até hoje.
Com o crescimento da cidade eles foram sendo expulsos para a periferia como ribeirinhos em busca de oportunidades de uma vida melhor, as marcas culturais e arquitetônicas dos Barés em Manaus foram sendo apagadas com o tempo, das poucas lembranças que a cidade conserva é rua dos barés, onde ficavam algumas malocas da etnia. A etnia também é mencionada no hino da cidade “toda em luz, como um sol surge e brilha/a cidade dos nobres Barés.”
A relação da etnia com Manaus é forte, a antropóloga Juliana Melo, em artigo, ao analisar a relação dos Baré com a cidade, afirma que a Manaus é poreles firmada como parte de seu territóriotradicional e ressignificada de diversas formas.Hoje, hápoucos dados oficiais sobre os números de Barés que compõem a população indígena que vive em Manaus, porque alguns indígenas negam suas ancestralidades, o que dificulta a coleta desses dados.

Autora: Camila Barbosa
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